Infertilidade Masculina: Quando Investigar e o que Revela o Espermograma - Androclinic

Infertilidade Masculina: Quando Investigar e o que Revela o Espermograma

Autor: Dr. Cristiano Grizza Estivalet
Publicado em: 10 de setembro de 2026
Tempo de leitura: 7 minutos

Resumo Clínico: o que você vai entender neste texto

  • O que caracteriza a infertilidade conjugal e depois de quanto tempo tentando engravidar vale procurar um médico
  • Por que a infertilidade masculina responde por praticamente metade dos casos de casais que não conseguem engravidar
  • O que o espermograma mede e como interpretar os valores de referência da OMS
  • Quais são as causas mais comuns e tratáveis da infertilidade masculina, com destaque para a varicocele
  • Quando pedir exames complementares, como dosagens hormonais e testes genéticos

Um casal tenta engravidar há quase um ano. Os ciclos passam, o teste dá negativo todo mês, e a conversa em casa começa a pesar. Na maioria das vezes, o primeiro exame pedido é da mulher. Só depois, quase como último recurso, alguém sugere que o homem também investigue. Essa ordem está invertida. A infertilidade masculina não é um detalhe secundário nessa investigação: responde por cerca de metade dos casos, e o espermograma, exame barato e sem dor nenhuma, costuma ser a primeira peça que revela o que está acontecendo.

O que é considerado infertilidade conjugal

A Organização Mundial da Saúde define infertilidade conjugal como a ausência de gravidez depois de 12 meses de relações sexuais regulares, sem contraceptivo. Essa é a regra geral que orienta quando buscar avaliação médica.

Há situações em que faz sentido não esperar o ano inteiro. Se a mulher tem 35 anos ou mais, o ideal é procurar avaliação depois de 6 meses, porque a fertilidade feminina declina de forma mais acentuada a partir dessa idade. O mesmo vale diante de fator de risco conhecido, como caxumba na infância com inflamação testicular, cirurgia prévia na bolsa escrotal, quimioterapia, exposição a calor excessivo por profissão ou histórico de varicocele.

A infertilidade conjugal atinge cerca de 15% dos casais em idade reprodutiva, e o fator masculino está presente em 40% a 50% dos casos, isolado ou combinado a um fator feminino.

Por que o espermograma costuma ser o primeiro exame

O espermograma, também chamado de seminograma, é a análise laboratorial do sêmen. Avalia quantidade, movimento e formato dos espermatozoides, além de características físicas e químicas do líquido seminal. É um exame simples, não invasivo e relativamente barato, que já entrega uma quantidade enorme de informação sobre a fertilidade masculina.

Para que o resultado seja confiável, o ideal é manter entre 2 e 7 dias de abstinência sexual antes da coleta, sendo 2 a 3 dias a janela mais recomendada. Um período muito curto reduz o volume e a concentração; um período muito longo pode comprometer a motilidade. Febre alta e estresse intenso nos meses anteriores também podem alterar o resultado, e vale comentar esse histórico com o médico.

Um ponto que muitos pacientes não sabem: um único espermograma alterado não fecha diagnóstico nenhum. A produção de espermatozoides varia de um ciclo para outro, e por isso a recomendação é repetir o exame quando o primeiro resultado vem fora da normalidade. Só depois de pelo menos duas análises o urologista consegue afirmar, com segurança, se existe alteração persistente.

“Recebo muitos homens no consultório com o espermograma na mão, já achando que aquele resultado é uma sentença. A primeira coisa que faço é acalmar a ansiedade e explicar que o exame precisa ser repetido antes de qualquer conclusão. Já vi paciente com um resultado alterado numa fase de estresse ou febre, e completamente normal quatro semanas depois. Investigar com calma, sem pânico, é metade do tratamento.”

Dr. Cristiano Estivalet

O que os números do espermograma realmente significam

Desde 2021, a OMS trabalha com uma tabela de referência atualizada, baseada em amostra global maior e critérios mais rigorosos que a edição anterior, de 2010. Esses valores representam o quinto percentil de homens com fertilidade comprovada. Estar abaixo de um desses números não significa infertilidade automática, mas indica necessidade de investigação mais profunda.

Parâmetro avaliadoValor de referência (OMS 2021)O que indica quando alterado
Volume do ejaculadoa partir de 1,4 mLPode sugerir obstrução de ductos ou disfunção das glândulas seminais
Concentração espermáticaa partir de 16 milhões/mLConcentração baixa recebe o nome de oligozoospermia
Total de espermatozoides no ejaculadoa partir de 39 milhõesReflete a produção testicular somada ao volume seminal
Motilidade progressivaa partir de 30%Baixa motilidade é chamada de astenozoospermia
Morfologia normal (critério de Kruger)a partir de 4%Percentual baixo é a teratozoospermia
Vitalidade espermáticaa partir de 54%Vitalidade reduzida recebe o nome de necrozoospermia
pH seminala partir de 7,2Valores fora da faixa podem indicar infecção ou obstrução

Vale registrar um termo que costuma assustar mais do que deveria: a azoospermia, ausência completa de espermatozoides no ejaculado. Pode ter origem obstrutiva, quando o transporte está bloqueado, ou não obstrutiva, quando a produção testicular está comprometida. A diferença muda o plano de tratamento, e por isso a azoospermia dispensa a espera de 12 meses e já indica investigação imediata.

Causas de infertilidade masculina: o que costuma ser tratável

A boa notícia é que boa parte das causas de infertilidade masculina tem tratamento, desde que identificadas a tempo. As principais são:

  1. Varicocele: dilatação das veias do cordão espermático, presente em até 35% dos homens inférteis. Causa corrigível mais comum, geralmente tratada por cirurgia.
  2. Causas hormonais: alterações no eixo que regula testosterona, FSH e LH, incluindo o hipogonadismo.
  3. Causas genéticas: síndrome de Klinefelter e microdeleções no cromossomo Y, comuns em azoospermia ou oligozoospermia severa.
  4. Criptorquidia: testículo que não desceu para a bolsa escrotal na infância, mesmo corrigido, pode deixar sequelas.
  5. Infecções: caxumba com orquite, ISTs não tratadas e prostatites crônicas.
  6. Obstrução dos ductos: incluindo vasectomia prévia.
  7. Estilo de vida e ambiente: tabagismo, álcool em excesso, obesidade, anabolizantes e calor elevado na região genital.
  8. Tratamentos oncológicos: quimioterapia e radioterapia, daí a importância do congelamento de sêmen antes do tratamento.

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Quando o espermograma não basta: os próximos exames

Quando o espermograma vem alterado, ou existem sintomas como queda de libido ou sinais de hipogonadismo, o urologista costuma ampliar a investigação. A avaliação hormonal, com testosterona total, FSH e LH, identifica se o problema está nos testículos ou num comando hormonal vindo da hipófise. O exame genético é obrigatório diante de azoospermia não obstrutiva ou oligozoospermia severa. O ultrassom escrotal complementa o exame físico diante de suspeita de varicocele, cisto ou massa testicular. Em casos selecionados, pede-se ainda o teste de fragmentação do DNA espermático.

O tratamento depende da causa, não de fórmula pronta

Não existe protocolo único para infertilidade masculina, e qualquer promessa nesse sentido merece desconfiança. O tratamento é definido causa por causa. Varicocele com alteração seminal costuma ser corrigida cirurgicamente. Causas hormonais podem exigir reposição, sempre com acompanhamento médico. Obstruções, quando identificadas, podem ter solução cirúrgica, incluindo reversão de vasectomia. Quando a causa não é corrigível, as técnicas de reprodução assistida, da inseminação intrauterina até a fertilização in vitro com injeção intracitoplasmática, costumam ser o caminho, com boas taxas de sucesso mesmo em quadros seminais bastante alterados.

O mais importante é não tratar o assunto como vergonha. Infertilidade masculina é condição médica como outra qualquer, com causa identificável na maioria dos casos e, com frequência, solução real.

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Dúvidas Frequentes no Consultório

1. Depois de quanto tempo tentando engravidar devo procurar um médico? Depois de 12 meses de tentativas regulares sem sucesso. Com parceira de 35 anos ou mais, ou fator de risco conhecido, o ideal é procurar avaliação a partir de 6 meses.

2. O espermograma dói ou exige preparo complicado? Não dói. O preparo envolve poucos dias de abstinência sexual, entre 2 e 3 dias na maioria dos casos, e evitar febre próximo à coleta.

3. Um espermograma alterado significa infertilidade definitiva? Não. A produção espermática varia entre ciclos, e o diagnóstico só se confirma depois de pelo menos duas análises alteradas.

4. Quais são os valores considerados normais no espermograma? Pela OMS 2021, incluem concentração a partir de 16 milhões/mL, motilidade progressiva a partir de 30% e morfologia normal a partir de 4%.

5. Varicocele sempre precisa de cirurgia? Não sempre. A indicação considera alteração do espermograma, sintomas associados e o desejo reprodutivo, avaliados pelo urologista.

6. Homem com azoospermia pode ter filhos biológicos? Em muitos casos, sim, dependendo se a causa é obstrutiva ou não, frequentemente com técnicas de recuperação espermática associadas à fertilização in vitro.

7. É preciso fazer exame genético em todo caso de infertilidade masculina? Não. É indicado principalmente em azoospermia não obstrutiva e em concentrações abaixo de 5 milhões/mL.

8. Vasectomia prévia significa infertilidade permanente? Não necessariamente. A reversão cirúrgica é possível em casos selecionados, além de técnicas de recuperação espermática.

9. Hábitos de vida realmente interferem na fertilidade masculina? Sim. Tabagismo, obesidade, anabolizantes e calor elevado na região genital estão entre os fatores que reduzem a qualidade seminal.

Um exame simples pode mudar toda a história

Passar meses tentando engravidar sem respostas desgasta qualquer casal, e o silêncio do homem nesse processo pesa mais do que ele mesmo percebe. Infertilidade masculina não é falha de caráter. É condição clínica, com causas conhecidas, exames capazes de apontar o caminho certo e, na maioria dos casos, tratamento real.

O espermograma é só o primeiro passo, mas costuma abrir a porta para todas as respostas seguintes. Procurar um urologista ou andrologista assim que o prazo de espera se esgota, ou antes, diante de um fator de risco conhecido, é o que coloca o tempo a favor do casal, e não contra ele.

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