Resumo Clínico: o que você vai entender neste texto
- Por que o excesso de peso derruba a testosterona do homem
- O que os estudos mostram sobre Mounjaro (tirzepatida), Ozempic (semaglutida) e testosterona
- O que muda, e o que ainda não se sabe, sobre libido e ereção
- Os cuidados que todo homem deve ter antes de começar a usar as canetas emagrecedoras
- Quais exames vale fazer antes e durante o tratamento
A pergunta sobre Mounjaro e testosterona virou rotina no consultório. Com a aprovação da primeira semaglutida genérica pela Anvisa em agosto de 2026, as canetas emagrecedoras devem ficar mais acessíveis, e muitos homens que nunca pensaram nelas passam a considerar o tratamento. Junto vem a dúvida: isso mexe com os hormônios? Vai atrapalhar o desejo ou a ereção?
A resposta curta surpreende muita gente. Nos homens com obesidade e testosterona baixa, os estudos disponíveis apontam mais para melhora do que para piora. Mas há detalhes que fazem toda a diferença.
Canetas emagrecedoras para homens: de quais remédios estamos falando
São medicamentos injetáveis semanais que imitam hormônios do intestino. Reduzem o apetite, retardam o esvaziamento do estômago e melhoram o controle da glicose.
| Medicamento | Substância | Como age | Indicação aprovada no Brasil |
|---|---|---|---|
| Ozempic | Semaglutida | Agonista do receptor de GLP-1 | Diabetes tipo 2 |
| Wegovy | Semaglutida | Agonista do receptor de GLP-1 | Obesidade e sobrepeso com comorbidades |
| Mounjaro | Tirzepatida | Agonista duplo dos receptores de GIP e GLP-1 | Diabetes tipo 2 e, desde 2025, obesidade |
| Ozivy (genérico) | Semaglutida | Agonista do receptor de GLP-1 | Diabetes tipo 2 e, em doses específicas, obesidade e sobrepeso |
“Agonista” significa que o remédio se encaixa no receptor e ativa a mesma resposta que o hormônio natural ativaria. O genérico, desenvolvido pela EMS, foi aprovado em 17 de agosto de 2026, como noticiou o Conselho Federal de Farmácia.
Por que a obesidade derruba a testosterona
O tecido adiposo não é um depósito parado. Ele produz substâncias que interferem diretamente na produção de testosterona.
- Aromatase em excesso. A gordura contém uma enzima chamada aromatase, que converte testosterona em estradiol, um tipo de estrogênio. Quanto mais gordura, mais conversão.
- Inflamação crônica. Substâncias inflamatórias liberadas pelo tecido adiposo inibem o hipotálamo, a região do cérebro que dá a ordem inicial para a produção hormonal.
- Resistência à leptina. A leptina, hormônio ligado à saciedade, também estimula esse comando. Na obesidade, o corpo passa a responder mal a ela.
- Menos LH e FSH. Com o comando enfraquecido, a hipófise libera menos dos hormônios que estimulam os testículos. O resultado é menos testosterona.
- Ciclo vicioso. Testosterona baixa favorece mais acúmulo de gordura.
Esse quadro tem nome: hipogonadismo funcional, ou metabólico. A prevalência varia de 25% a 70% entre homens com obesidade, conforme a população estudada, segundo revisão publicada no Portal Afya. A boa notícia: ele costuma ser reversível quando o peso cai. A diretriz europeia sobre o tema coloca a perda de peso como a base do tratamento.
Mounjaro e testosterona: o que os estudos mostram
A tirzepatida chamou atenção em um estudo italiano publicado em julho de 2025 na revista Reproductive Biology and Endocrinology. Pesquisadores da Universidade de Catânia acompanharam por dois meses 83 homens com obesidade, hipogonadismo metabólico e disfunção erétil, divididos em três grupos. Todos fizeram dieta e caminhada diária.
| Grupo | Testosterona total antes (mediana) | Depois de 2 meses | Aumento | Perda de peso |
|---|---|---|---|---|
| Tirzepatida + estilo de vida (28 homens) | 186,5 ng/dL | 424 ng/dL | Cerca de 128% | Cerca de 8% |
| Testosterona em gel + estilo de vida (25 homens) | 186 ng/dL | 272 ng/dL | Cerca de 46% | Cerca de 3% |
| Apenas estilo de vida (30 homens) | 192 ng/dL | 266 ng/dL | Cerca de 44% | Cerca de 2%, sem significância |
A função erétil, medida pelo questionário IIEF-5, melhorou mais no grupo da tirzepatida do que no grupo que só mudou hábitos. Em relação ao grupo que usou testosterona, a diferença não foi significativa.
Outros dados caminham na mesma direção. Uma análise de prontuários apresentada no congresso da Endocrine Society em 2025 avaliou 110 homens com obesidade ou diabetes tipo 2 tratados com semaglutida, tirzepatida ou dulaglutida por 18 meses. A proporção de homens com testosterona dentro da faixa normal subiu de 53% para 77%, com perda média de 10% do peso. Em junho de 2026, uma revisão sistemática apresentada no mesmo congresso, e repercutida pelo Metrópoles, reuniu cinco estudos: nos homens com testosterona baixa, ela subiu com as canetas. Nos homens saudáveis, não houve mudança.
O que esses estudos ainda não provam
Os números são animadores, mas precisam ser lidos com cuidado. O estudo italiano teve poucos participantes, não foi randomizado e durou apenas dois meses, limitações que os próprios autores reconhecem. A análise de prontuários não tinha grupo de comparação. E ainda não se sabe se o efeito vem só do emagrecimento ou de alguma ação direta do remédio.
O mais provável é que a perda de gordura desfaça os mecanismos que suprimiam a testosterona. O remédio é a ferramenta. Quem trata o hormônio é o emagrecimento.
“Recebi um paciente de 44 anos, com diabetes e obesidade, que já chegou pedindo reposição de testosterona. Os exames confirmavam testosterona baixa, mas o quadro tinha cara de hipogonadismo metabólico. Em conjunto com a endocrinologia, optamos por tratar primeiro o peso, com medicação, dieta e treino de força, e repetir a dosagem hormonal depois. Com a perda de peso, a testosterona voltou para a faixa normal e ele relatou mais disposição e desejo. Ele não precisou de reposição. Precisava tirar o freio que a gordura colocava no corpo dele.”
Dr. Cristiano Estivalet
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E a libido? O efeito pode variar
A libido depende da testosterona, mas também de sono, autoestima, humor e da relação a dois. Muitos homens relatam mais disposição e confiança à medida que perdem peso.
Por outro lado, as primeiras semanas podem trazer náuseas, diarreia ou prisão de ventre, efeitos descritos em bula. Quem come pouco e se sente mal dificilmente terá desejo em alta naquela fase. Se a queda de libido persiste, ela merece investigação, como explicamos na página sobre falta de desejo e queda de libido.
Sobre a ereção, há um sinal ainda em debate. Uma análise retrospectiva apresentada em 2023 num congresso norte-americano de medicina sexual encontrou mais registros de disfunção erétil entre homens não diabéticos usando semaglutida para emagrecer, embora com poucos casos em números absolutos. O dado não prova causa e efeito. Mudou algo na sua função sexual? Converse com o médico.
Cuidados antes de usar as canetas
- Só com prescrição. Desde 2025, a farmácia é obrigada a reter a receita de semaglutida, liraglutida e tirzepatida, conforme decisão da Anvisa noticiada pelo CFF.
- Cuidado com falsificações. A Anvisa já emitiu alertas sobre lotes falsos de Mounjaro e sobre versões orais e manipuladas sem eficácia comprovada.
- Proteja a massa muscular. Parte do peso perdido pode ser músculo. Proteína adequada e treino de força ajudam a preservá-lo.
- Não combine com hormônios por conta própria. Testosterona sem indicação pode suprimir a produção natural e prejudicar a fertilidade.
- Durma bem. A apneia do sono é frequente em homens com obesidade e também derruba a testosterona, como mostramos no texto sobre apneia do sono, testosterona e libido.
Exames que costumam fazer parte da avaliação
| Exame | Para que serve |
|---|---|
| Testosterona total pela manhã | Confirmar ou descartar testosterona baixa. Geralmente se repete a dosagem para confirmar |
| SHBG e testosterona livre | A obesidade altera a proteína que transporta a testosterona, e isso muda a interpretação do resultado |
| LH e FSH | Mostrar se a origem do problema está no cérebro ou nos testículos |
| Estradiol e prolactina | Avaliar a conversão hormonal pela gordura e outras causas de libido baixa |
| Glicemia, hemoglobina glicada e colesterol | Medir o impacto metabólico, que também afeta a ereção |
Para ir além, veja os textos sobre diabetes, colesterol e saúde sexual masculina e sobre reposição hormonal masculina e hipogonadismo.
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Dúvidas Frequentes no Consultório
1. Mounjaro aumenta a testosterona?
Em homens com obesidade e testosterona baixa, estudos pequenos mostraram aumento, provavelmente ligado à perda de peso.
2. Ozempic diminui a testosterona?
Não há evidência de queda. Em homens saudáveis, os estudos não mostraram mudança; em obesos com testosterona baixa, ela tende a subir.
3. Canetas emagrecedoras tiram a libido?
Não há prova de efeito direto. Náusea e baixa ingestão no início podem reduzir o desejo temporariamente.
4. A caneta substitui a reposição de testosterona?
Em parte dos casos de hipogonadismo metabólico, tratar o peso já normaliza o hormônio. A decisão é individual e médica.
5. O Mounjaro causa disfunção erétil?
Não há comprovação. A perda de peso costuma melhorar a ereção, mas qualquer mudança deve ser relatada ao médico.
6. Posso usar caneta e testosterona ao mesmo tempo?
Só com indicação e acompanhamento. Testosterona sem necessidade suprime a produção natural e pode afetar a fertilidade.
7. Preciso de receita para comprar semaglutida genérica?
Sim. Desde 2025 a farmácia retém a receita, que tem validade de 90 dias.
8. Em quanto tempo a testosterona pode melhorar?
No estudo italiano, em dois meses. Na prática, depende de quanto peso se perde.
9. Quais exames devo fazer antes de começar?
Testosterona total pela manhã, SHBG, LH, FSH, glicemia e perfil de colesterol, conforme a orientação médica.
Considerações Finais
A relação entre Mounjaro e testosterona é mais favorável do que muitos homens imaginam. Para quem tem obesidade e testosterona baixa, emagrecer com acompanhamento pode devolver o equilíbrio hormonal, a disposição e, muitas vezes, o desejo. Mas os estudos ainda são pequenos e curtos, e a caneta não é um tratamento hormonal por si só. Com o genérico, mais homens devem usar esses remédios. Que esse uso venha com diagnóstico, exames e um plano que cuide do corpo inteiro, incluindo a vida sexual.
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